Religião não é vilã. Vilão é o buraco dentro de gente que tenta se preencher com um cargo. Quando o ego treme, qualquer crítica soa como blasfêmia. E então a fé, que deveria abrir janelas, vira campo de guerra. O discurso muda de tom: não se defende uma ideia; defende-se um lugar.

O mecanismo é simples. Primeiro, confunde-se autoridade com identidade. O “título” cola no peito como selo de existência: sem ele, quem sou? Depois, toda divergência vira ameaça pessoal. O debate deixa de ser sobre princípios e desce para o ringue da vaidade. E, por fim, ergue-se uma muralha moral: “questionar é ofender”. Pronto. A conversa morreu antes de começar.

Não é a religião que faz isso. É gente. Gente com medo de ser comum. Gente que troca serviço por palco. Gente que precisa de plateia para respirar. Em ambientes assim, florescem os “guardas da pureza”: fiscalizam palavras, gestos, roupas, modos de sentir. E quanto mais estreito o corredor, mais fácil controlar o fluxo. A graça dá lugar à vigilância; a compaixão, à etiqueta. A fé vira protocolo.

Esse quadro piora quando o cargo religioso é o centro de gravidade da vida. Sem profissão consolidada, sem ofício cultivado, sem hobbies, sem respiro do lado de fora, o templo vira mundo, e o mundo vira disputa. A pauta diária passa a ser manutenção de território: quem entra, quem sai, quem sobe, quem é silenciado. O altar vira espelho, e a liturgia, disfarce para insegurança. Fala-se de Deus, mas briga-se por status. Reza-se por cura, mas adoece-se de poder.

Há também a pedagogia do medo: “quem questiona perde o lugar”, “quem pensa diferente está ‘em provação’”, “quem chama ao diálogo é soberbo”. Essa gramática não forma consciência; forma cinto de castidade para a mente. A disciplina vira punição, e a comunidade, arquibancada. No fim, o grupo se fecha não por convicção, mas por pavor de cair do pedestal, um pedestal que, no fundo, só existe dentro do próprio grupo.

Comunidades maduras andam na contramão disso. Autoridade é serviço, não palco. Diferença é convite, não sentença. Prestação de contas é hábito, não humilhação. Lideranças seguras não precisam fabricar inimigos internos para justificar o próprio lugar. Sabem ouvir, sabem perder, sabem passar o bastão. E quem as cerca tem vida para além das paredes: estuda, trabalha, cria, descansa, ama. Quando a pessoa é inteira, o cargo pesa menos. Quando o cargo pesa mais que a pessoa, alguém está sendo esmagado.

No íntimo, tudo começa com uma pergunta que quase ninguém quer encarar: “quem sou eu sem o meu crachá sagrado?”. Se a resposta for silêncio, qualquer crítica vira ameaça existencial. Se a resposta for “sou mais do que isso”, o diálogo volta a ser possível. A religião respira quando o sujeito respira. O sagrado floresce quando o ego aprende a ficar em segundo plano.

Que fazer, então?

  1. Aceitar que a fé não precisa ser licença de autoridade. O nome do jogo é serviço.
  2. Cultivar obra fora do templo: trabalho honesto, estudo sério, arte, amizade, lazer. Vida real desmonta teatro.
  3. Proteger o espaço do debate. Uma ideia boa não teme perguntas; quem teme perguntas costuma temer o próprio espelho.

No fim das contas, repito de propósito: o problema não é a religião. O problema é gente usando religião como biombo para fragilidade. Quando a capa cai, sobra o que deveria estar lá desde o começo: humildade, responsabilidade e cuidado. O resto é barulho de vitrine.

Este é o meu ponto: ideias não machucam sozinhas; pessoas machucam quando se sentem pequenas demais para ouvir. Que a gente escolha menos trono e mais chão. Menos pose e mais serviço. Onde o ego diminui, a fé finalmente cabe.